Fui à festa pra dançar e me divertir. Fazia um bom tempo que
meu corpo não se deslocava a qualquer outro lugar que não fosse à faculdade e
minha casa, mas dessa vez era diferente e estava saindo rumo à diversão.
A fila estava meio grande, não vi nenhum conhecido, mas
decidi esperar por alguém. Esperei demais e adentrei no recinto, e não estava
tão cheio como pensei. Bem, não queria eu que aquele lugar estivesse cheio
sendo que eram apenas onze e meia da noite. Subi as escadas e dancei nem sei
que música, só lembro que era dos anos oitenta. Fui ao bar e peguei um
refrigerante, já que meu gosto é bem seletivo e não tolera álcool. Voltei a
dançar e não demorou muito pra que algum rapaz viesse se engraçar pro meu lado.
- Qual é teu
nome?
- Fernanda.
- “Tá”
sozinha?
- Não, estou
com amigos.
E logo eu voltava
a dançar fechando os olhos e sorrindo, dando a entender que ele não me agradou.
Posso dizer que essa cena se repetiu mais umas oito ou nove vezes. Tudo bem que
vão dizer que sou esnobe, mas se eu fosse ficar com alguém naquela festa, seria
um homem bonito e atraente, e ninguém assim veio falar comigo. Ora, eu também
tenho minhas exigências, assim como os homens.
- Mas aí
você vai estar abrindo mão de conhecer alguém que possa ser legal. – Disse outro
rapaz que quis ser meu psicólogo.
- Eu não vim
aqui conhecer meu namorado.
Voltei a
dançar e quando resolvi dar uma descansada, esse mesmo rapaz veio com um amigo,
que perguntou se eu lembrava dele.
- Não
lembro.
- Como não?
Eu também cheguei em você.
Percebi que
aquilo poderia ser mentira, mas a situação não estava boa. Os dois ficaram me
encarando, como se me condenassem por dar foras em tantos caras. Sim, eles se
prestaram a contar quantos caras vieram falar comigo, e depois foram me
encarar.
Saí de perto
e fui para o outro ambiente da festa ouvir um pouco de rock. Sentei-me num
canto e comecei a pensar no que eu tinha feito até ali, que eu não era superior
a ninguém para dar tantos foras, mas eu não tinha culpa por não ir à festa com
o objetivo de ficar com alguém.
Outros
problemas invadiram minha cabeça e foi inevitável não me abalar e simplesmente
abaixar a cabeça com as mãos no rosto e chorar. Até parecia que eu estava de
porre. Não demorou pra que outro rapaz sentasse ao meu lado e visse minha
situação. Fez-me diversas perguntas e ficou ali, esperando eu me recompor. Veio
até mesmo uma moça sentar do meu lado e perguntar se eu tinha bebido.
- Eu não
bebo.
- Você está
se sentindo bem?
- Sim, logo
passa.
Num gesto de
ajuda tirou os cabelos do meu rosto e puxou para trás, como se tentasse fazer
um rabo de cavalo. Nessa altura deixei que qualquer estranho cuidasse de mim,
estava entregue à noite e às suas armadilhas emocionais. Recompus-me e fui ao
banheiro olhar meu rosto de criança chorosa, e vi que estava sendo uma besta.
Voltei para
a outra pista, tentei dançar, mas nada se ajeitou. Não me deixavam dançar (“ai, mas como ela é
bonitona e ninguém resiste”).
Já era umas
quatro e pouca da manhã, logo eu já iria embora, então desci e fiquei escorada
num balcão, esperando meu amigo pra irmos embora. Quando vejo surge um rapaz ao
meu lado, e logo pensei ser mais um daqueles chatos que só querem “pegar” e ir
embora.
Porém o papo
dele foi diferente, dizendo que notou que eu estava desanimada e queria saber
por quê. Expliquei a situação e ele perguntou se eu aceitava uma companhia pra
conversar numa boa, já que tinha que fazer hora pra ir trabalhar. Aceitei e
começamos a conversar sobre diversas coisas, até mesmo sobre profissão. Olhei
no relógio e já estava quase na hora de eu ir embora, comentei e nesse instante
começou a tocar Michael Jackson. O simpático rapaz me convidou pra dançar, e eu
pensei “que se dane o horário, vou me divertir mais um pouco”. Subimos as
escadas e dançamos que nem loucos, cantando um pro outro, como se nos
conhecêssemos há tempos. Dançamos mais algumas músicas e disse a ele que dessa
vez eu teria mesmo que ir.
Aprendi que, apesar de tudo,
bem no finalzinho ainda pode ter algo interessante, e muito.